Batidas Na Parede

O relato que estou a ponto de contar, foi provavelmente a experiência mais aterrorizante que já tive em minha vida…

Meu nome não é relevante, por isso, prefiro não revela-lo.

Há cerca de 6 meses, venho vivendo em um pequeno apartamento alugado, próximo a minha universidade. Sem duvida alguma, essa foi uma das melhores decisões que já tomei, embora, tenha suas consequências.

Afinal, nem sempre “estar só” significa algo bom. As vezes, passamos momentos nostálgicos e de muita tristeza.

As coisas foram difíceis no início, mas aos poucos, comecei a me acostumar a essas circunstâncias. Por exemplo, as horas em que estava no meu apartamento, aproveitava para (na maior parte do tempo) estudar, e por alguns minutos navegar na internet, ou simplesmente ver televisão.

Vale ressaltar que, até então, jamais tive qualquer tipo de problema vivendo aqui. Era uma vizinhança bastante tranquila, apesar de que, sendo este um país violento, haviam sim certos perigos, vez ou outra.

Basicamente, posso dizer que isso se deve ao fato de que, após um certo horário algumas quadras daqui, costuma haver um movimento de trafico e prostituição.

Ao lado meu apartamento, há uma casa de dois andares, e nela vive uma senhora idosa muito amável e terna que nunca deixa de me cumprimentar todas as manhãs. Sem duvida alguma, um exemplo de boa vizinha.

Bem, agora vcs já conhecem cada fator do que quero relatar a seguir…

Havia sido uma semana bastante desgastante, e apesar de o período de exames já ter terminado, os trabalhos não paravam de chegar. Aquilo parecia não ter fim.

Se bem posso me recordar, eu estava editando um texto para um trabalho (mais um de viés marxista), sobre o impacto de um regime “capitalista e imoral”.

Após varias horas sentado em frente ao computador, decidi me levantar para beber algo e tomar um pouco de ar fresco. Fui até o refrigerador e me servi com um pouco de suco que havia em uma jarra.

O tempo tinha passado e não havia me dado conta de que já eram quase 2:30h da madrugada. Nesse instante, decidi que já era hora de dormir. Mas não sem antes ir ao banheiro, claro.

Justo no momento em que entrei ao banheiro, ouvi algo estranho. Era uma som inicialmente parecido com “tambores”. Era uma espécie de vibração, não tão forte, mas que se fazia bastante sonora dentro do apartamento.

No princípio, pensei que fosse alguém batendo em minha porta, algo que me assustou bastante, já que era um horário impróprio para visitas.

Rapidamente, decidi olhar pela janela e me assegurar que não se tratava de algum bandido com intenções de cometer um assalto em meu apartamento.

Mas, não…

Ali não havia absolutamente ninguém.

As ruas estavam completamente vazias, e nem mesmo o vento eu pude ouvir. Tudo permanecia no mais absoluto silêncio…

Tanto foi assim que voltei novamente minha atenção às “batidas”.

Rapidamente comecei a buscar pelas origens daqueles pequenos ruídos, até chegar em uma das paredes do meu quarto.

Nesse momento me senti confuso, pois, aquela parede era justamente a ligação entre o meu apartamento e a casa de minha idosa e amável vizinha.

E as batidas continuaram…

E continuaram numa estranha sequência de quatro por vez.

Após pensar por alguns instantes, pensei que a senhora, após não conseguir dormir e se sentindo bastante entediada, estivesse tentando estabelecer comigo, alguma forma de comunicação.

Decidido a seguir com o jogo, tomei um livro qualquer, e já com um sorriso, comecei também a dar batidas na parede.

Nesse momento, as batidas do outro lado se detiveram. Foi como se a senhora percebesse que suas batidas haviam chamado minha atenção. Logo, elas voltaram a soar, porém, dessa vez de maneira mais suave e lenta.

Confesso que aquilo foi bastante divertido, de maneira que segui com as batidas, vendo que cada vez que eu o fazia, a senhora respondia com o mesmo gesto. O que me fez imagina-la sorrindo, ou que estivesse proporcionando a ela um momento feliz.

Afinal, eramos dois solitários, e ninguém melhor que eu para saber o que aquele jogo poderia significar para ela.

Foi um momento, de certa forma, mágico.

Algo que eu jamais havia experimentado antes.

Continuamos assim por quase meia hora, até que minhas mãos se cansaram…

Então, pela primeira vez decidi falar:

“Acho que vou dormir, vizinha. Mas, foi divertido. Até amanhã”

Houve então um completo silêncio. Ela não respondeu. E logo em seguida, as batidas continuaram…

Dessa vez, em sequência de dois por vez.

Eu, já bastante cansado, disse a ela de forma bem humorada:

“Ouça, vizinha… infelizmente, não posso fazer isso a noite toda”

Mesmo assim, as batidas seguiam… agora de forma mais lenta, e em sequência de uma por vez.

Sem querer ferir os sentimentos de alguém que eu sempre considerei como uma pessoa doce e gentil, disse.

“Infelizmente não posso continuar nossa conversa. Tenho estudado muito ultimamente é preciso dormir… boa noite”

Em seguida, coloquei o livro sobre um criado mudo e me dirigi até minha cama, sem deixar de notar que as batidas seguiam, porém, cada vez mais lentas.

E assim as batidas continuaram, de certa forma, isso me foi me conduzindo lentamente para um sono profundo. Sono esse que eu já não experimentava há semanas.

Logo os golpes… também… adormeceram.

Eram por volta das 10:40h da manhã quando finalmente me despertei. Há muito tempo não me sentia tão bem e com tamanha energia. Era incrível como finalmente eu havia conseguido me recuperar, após uma semana tão cheia e atribulada.

Não lembrei imediatamente das batidas da última noite ou da minha simpática vizinha. E assim decidi comer algo rápido, e me aprontar para algumas aulas logo mais a tarde.

Ao contrário das noites extremamente silenciosas, os dias em meu bairro costumam ter muita movimentação e barulho, já que possui uma localização de certa forma privilegiada, estando próximo de vários serviços essenciais e de lazer.

Talvez por isso eu não tenha me dado conta imediatamente do que estava acontecendo…

Viaturas, ambulâncias, e uma multidão de pessoas permaneciam em frente a casa da minha simpática vizinha.

Algo triste e terrível havia acontecido, e o corpo da idosa se encontrava em uma maca, coberta por um lençol.

Sem conseguir entender o que passava, me dirigi a um policial e o questionei, porém, devido as circunstâncias, fui ignorado.

Senti que não poderia sair dali, sem ao menos saber o que havia acontecido com minha doce vizinha, sobretudo após passar um belo momento juntos… talvez… seu ultimo momento.

Me aproximei de uma das muitas viaturas presentes no local. Nela havia um homem algemado. O mesmo era de certa forma obeso e possuía uma aparência asquerosa, além de cheirar bastante mal.

O sujeito estava calado e parecia ter lágrimas em seus olhos.

Foi então que ouvi um dos policiais se comunicando através do rádio, e informando aquela ocorrência. As palavras daquele policial me chocaram profundamente.

Aparentemente, minha doce vizinha, havia sido assassinada com seu crânio sendo por seguidas vezes golpeado contra a parede.

Um terror imenso me invadiu ao pensar no tamanho horror de que, na noite anterior, eu estive jogando não com uma pessoa que, para mim era imensamente querida, mas sim com seu assassino.

Eu com um livro, e ele… com seu crânio.

Após essa terrível experiência passei a necessitar de acompanhamento psicológico e medicamentos para ansiedade e antidepressivos.

Passei muitas noites temendo que aquelas batidas voltassem… mas elas nunca voltaram, pelo menos não realmente.

As vezes posso ouvi-las, mas segundo meu psicólogo, é por pura paranoia.

Bem, essa foi minha história, e espero que se algum dia vc chegue a ouvir batidas em sua parede, não se trate de um macabro jogo.